Pr. Emerson Alves

  Teologia

A Cristologia como eixo da Fé Cristã


A Escritura apresenta Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Conhecer corretamente quem Cristo é fundamenta a fé, sustenta a adoração e orienta a vida cristã.


 Publicado por Pr. Emerson Alves em 9 de fevereiro de 2026.   Tempo de Leitura 8 min.

Jesus Cristo e a Natureza de Deus

Introdução

A Cristologia ocupa posição central na fé cristã porque responde à pergunta decisiva levantada pelo próprio Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16:15). Toda a teologia cristã se organiza a partir da resposta correta a essa questão. Não se trata apenas de uma investigação acadêmica, mas do fundamento da fé, da salvação, da adoração e da vida cristã. Como afirmou Karl Barth, “o conteúdo da revelação é Deus revelando a si mesmo em Jesus Cristo” (BARTH, Church Dogmatics).

Desde a igreja primitiva, qualquer distorção na compreensão da pessoa de Cristo resultou em desvios doutrinários graves. Por isso, a Cristologia não é um tema periférico, mas o eixo que sustenta toda a estrutura da fé cristã. Como bem destacou Stanley Horton, teólogo pentecostal clássico, “toda doutrina cristã deve ser julgada à luz de quem Cristo é e do que Ele fez” (Systematic Theology).


I. A Cristologia como eixo da fé cristã

1. A centralidade de Cristo na revelação bíblica

A revelação bíblica não é fragmentada nem dispersa; ela converge para a pessoa e a obra de Jesus Cristo. O Antigo Testamento aponta para Ele por meio de tipos, promessas e profecias, enquanto o Novo Testamento apresenta seu cumprimento histórico e redentor. Jesus não é apenas um mensageiro da revelação — Ele é a própria revelação encarnada.

O apóstolo João afirma que os sinais registrados em seu Evangelho têm um propósito claro: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus” (Jo 20:31). Em Colossenses 2:9, Paulo declara de forma inequívoca que “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. A cristologia paulina não admite reduções ou ambiguidades.

Millard Erickson observa que “a maneira como entendemos Cristo determina inevitavelmente nossa compreensão de Deus, da salvação e da realidade espiritual” (Christian Theology). Da mesma forma, Gordon Fee, pentecostal respeitado no campo da exegese, afirma que “Paulo não concebe Cristo como subordinado em essência, mas como plenamente participante do ser divino” (Pauline Christology).

2. As consequências de uma Cristologia distorcida

Uma cristologia inadequada compromete toda a soteriologia. Se Cristo não é plenamente Deus, sua obra carece de valor infinito; se não é plenamente homem, Ele não pode representar legitimamente a humanidade. A Escritura apresenta Cristo como o único mediador (1Tm 2:5), não como um intermediário entre Deus e os homens.

Atanásio de Alexandria, combatendo o arianismo, afirmou com precisão: “Aquilo que não foi assumido não pode ser redimido” (De Incarnatione). Séculos depois, Donald Gee, um dos pais do pentecostalismo clássico, ecoa essa verdade ao afirmar que “um Cristo diminuído produz uma salvação diminuída” (Concerning Spiritual Gifts).

Paulo adverte que qualquer “outro evangelho” é, na verdade, uma perversão da verdade (Gl 1:6–9). Isso inclui, inevitavelmente, falsas concepções sobre a pessoa de Cristo.


II. A necessidade de submissão da razão à revelação

1. A limitação da razão humana diante de Deus

A razão humana, embora valiosa, é finita. Deus, por sua vez, é infinito, eterno e transcendente. Por isso, a revelação divina não nasce da investigação humana, mas da iniciativa soberana de Deus. Isaías 55:8–9 estabelece esse abismo entre o pensamento divino e o humano.

Agostinho de Hipona já afirmava: “Creio para compreender” (credo ut intelligam). A fé precede e orienta o entendimento. Paulo reforça essa verdade ao declarar que a cruz é loucura para a razão não regenerada (1Co 1:18–25).

No pensamento pentecostal clássico, Myer Pearlman ensina que “a revelação não contradiz a razão, mas frequentemente a ultrapassa” (Knowing the Doctrines of the Bible). Assim, a fé cristã não é irracional, mas suprarracional.

2. A razão como serva da Palavra

Submeter a razão à revelação não significa abdicar do pensamento crítico, mas reconhecer sua função correta. A mente humana deve interpretar a Escritura, não julgá-la. Quando a razão se torna juíza da revelação, surgem heresias cristológicas.

Paulo ensina que as coisas espirituais são discernidas espiritualmente (1Co 2:10–14). Stanley Horton destaca que o Espírito Santo não anula o intelecto, mas o ilumina, conduzindo-o à verdade revelada (What the Bible Says About the Holy Spirit).


III. A afirmação explícita da divindade de Cristo

1. Títulos e declarações divinas aplicadas a Jesus

A Escritura atribui a Jesus títulos exclusivos de Deus: “Deus Forte” (Is 9:6), “o Verbo” eterno (Jo 1:1), “Senhor” (Rm 9:5), “nosso grande Deus e Salvador” (Tt 2:13). A confissão de Tomé — “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20:28) — é aceita por Jesus sem qualquer correção.

F. F. Bruce observa que “a mais elevada cristologia do Novo Testamento surge não de debates tardios, mas da experiência primitiva da Igreja com Cristo ressuscitado” (Jesus: Lord and Savior).

2. O testemunho apostólico

Colossenses 2:9 e Hebreus 1:3 deixam claro que a divindade de Cristo é plena, essencial e eterna. Não se trata de um título honorífico, mas de uma afirmação ontológica.

Gordon Fee enfatiza que a adoração prestada a Cristo na igreja primitiva só é inteligível se Ele for compreendido como plenamente Deus (God’s Empowering Presence).


IV. A refutação da ideia de “deus menor” ou ser criado

1. O monoteísmo bíblico absoluto

A fé bíblica é radicalmente monoteísta (Dt 6:4). Não há espaço para seres semidivinos ou hierarquias ontológicas dentro da divindade. Isaías 43:10–11 e 44:6 excluem qualquer noção de “deus secundário”.

Atanásio foi enfático ao afirmar que chamar Cristo de “deus menor” equivale a negar o próprio Deus verdadeiro.

2. Cristo como Criador, não criatura

João 1:3 e Colossenses 1:16–17 afirmam que todas as coisas foram criadas por meio de Cristo e subsistem nele. Um ser criado não pode ser a causa de toda a criação.

Millard Erickson afirma: “Cristo não pertence à criação; Ele é o fundamento ontológico de tudo o que existe” (Christian Theology).


V. A realidade plena da encarnação

1. A verdadeira humanidade de Cristo

A encarnação foi real, histórica e completa. O Filho eterno assumiu plenamente a natureza humana (Jo 1:14), experimentando fome, cansaço, emoções e sofrimento, sem pecado (Hb 4:15).

Myer Pearlman ressalta que negar a humanidade plena de Cristo é tão grave quanto negar sua divindade, pois ambas são essenciais à redenção.

2. Cristo como representante da humanidade

Como o segundo Adão (Rm 5:18–19), Cristo obedece onde o primeiro falhou. Sua humanidade real é condição indispensável para sua obra mediadora (Hb 2:17).


VI. A kenosis: esvaziamento funcional, não ontológico

Filipenses 2:6–8 descreve o esvaziamento de Cristo não como perda de divindade, mas como renúncia voluntária ao uso independente de seus privilégios divinos.

Gordon Fee afirma que a kenosis deve ser entendida “em termos de vocação e missão, não de ontologia” (Pauline Christology). Cristo permanece plenamente Deus (Cl 2:9), sendo imutável em sua essência (Hb 13:8).


VII. Relação intratrinitária e submissão funcional do Filho

A Trindade revela distinção de pessoas e unidade de essência. O Filho existe eternamente em comunhão com o Pai (Jo 17:5). Sua submissão é funcional e econômica, não ontológica.

Stanley Horton ensina que “a submissão do Filho não implica inferioridade, mas expressa a perfeita harmonia do plano redentor” (Systematic Theology).


Conclusão geral

A Escritura apresenta Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Sua divindade plena, encarnação real, kenosis funcional e submissão voluntária revelam o coração do plano redentor de Deus. Não há espaço bíblico para um Cristo reduzido, criado ou intermediário. Conhecer corretamente quem Cristo é fundamenta a fé, sustenta a adoração e orienta a vida cristã.


Bibliografia

BARTH, Karl. Church Dogmatics. T&T Clark.
BRUCE, F. F. Jesus: Lord and Savior. InterVarsity Press.
ERICKSON, Millard J. Christian Theology. Baker Academic.
FEE, Gordon D. Pauline Christology. Baker Academic.
FEE, Gordon D. God’s Empowering Presence. Hendrickson.
HORTON, Stanley M. Systematic Theology. Logion Press.
HORTON, Stanley M. What the Bible Says About the Holy Spirit. Gospel Publishing House.
PEARLMAN, Myer. Knowing the Doctrines of the Bible. Gospel Publishing House.
GEE, Donald. Concerning Spiritual Gifts. Springfield.
ATANÁSIO. De Incarnatione Verbi Dei.

Atualizada em 09/02/2026




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